A Invasão do Conjunto, Uma Aventura Caiçarense

A INVASÃO DO CONJUNTO, UMA AVENTURA CAIÇARENSE.



Foi inacreditável! O ano foi 1989 e o Brasil estava todo vidrado na novela "Que rei sou eu?". Aqui em Caiçara, na Paraíba, não era diferente. A novela dos reis, príncipes e magos, era uma verdeira "mania" aqui na cidade e acabou "realmente" mexendo com toda a população quando, no último capítulo, moradores empolgados com iminente vitória de Jean Pierre sobre Pichot, com a tomada do castelo de Avilan, não se contiveram acabaram invadindo, na noite, do último capítulo, um conjunto habitacional que estava num impasse para ser entregue.
Maria de Lourdes Souza de Oliveira(Lurdinha), no tempo da novelan tinha acabado de me casar e não tinha uma casa, morava com seu marido, de apelido Segundo, numa casa de taipa "cai-não-cai", que um amigo dele arrumou. Adorava acompanhar as novelas da Globo e seu marido assistia com ela, era uma das graças da vida dela, mas seu maior sonho era ter a sua casinha.
O sonho parecia estar perto quando o prefeito botou o nome deles para receber uma casa no novo conjunto habitacional. Só que de uma hora pra outra as obras param, veio a eleição, saiu Pedro Alves e entrou George Neves, e a coisa continuou parada, saiu um boato que já tinha umas 400 pessoas na lista e lá só tinha 80 casas. Aí a coisa ficou meio confusa: uns diziam que iam retomar as obras e entregar aos primeiros que deram o nome, outros diziam que ia ter sorteio.
Foi aí que entrou a novela, quando começaram a preparar a invasão lá de Avilan, seu marido foi e disse: "É uma injustiça que façam sorteio, não temos culpa se o prefeito botou mais pessoas do que casas. O direito é de quem deu o nome primeiro, como a gente, vou organizar o pessoal e 'invadir' o conjunto". Ela achou nessa hora ele a cara do Jean Pierre.
A coisa foi sendo combinada de acordo com a novela, eles iriam prá lá na noite do final. isso tudo combinado na base do cochicho, ninguém fora os envolvidos deveria saber, Lourdes achava tudo muito emocionante, igual a novela.
Da forma combinada, foi os rebeldes invadindo lá e eles aqui. Foi uma graça! só vendo! era o povo correndo prá invadir e o povo da cidade correndo prá olhar, isso na hora da novela(ainda bem que o capitulo final repete no sábado!). Para ela foi uma noite inesquecível! o sonho da sua casinha se realizava. Ela foi a primeira a levar logo os seus "troçinhos" para lá. Mas imagine só o desmantelo: tinha umas casas já cobertas, outras só com as paredes levantadas, todas sem portas e sem piso, algumas só a "sapata" tava feita e o curioso era que quem pegava a sua não podia sair com medo de outro não vir e tomar, assim quem chegava não saía nem prá tomar água, teve gente que dormiu só no terreno, todo mundo botou lençol nas portas, uma loucura! Seu marido botou a cama em cima quatro tijolos e foi só pra que deu: dois tijolos se quebraram e na primeira noite a cama desabou, mas eles nem ligavam de tão felizes que estavam.
O fato é que depois aceitaram realmente que eles ficassem lá e o Conjunto Severino Ismael de Oliveira ficou conhecido desde então por "Avilan" e o seu marido ficou por um bom tempo sendo apelidado de "Jean Pierre" e Lourdes, embora sem apelido, se sentia sua Juliette.
Desses 40 anos da Globo esse foi o momento que mais me marcou, "pois se hoje tenho o que é meu, foi graças a Deus e a novela Que rei sou eu?", até rimou.

Nota: O texto foi fruto do depoimento de Lourdes em março de 2005, ano em que a Globo completou 40 anos. Houve um concurso do Fantástico onde as pessoas poderiam enviar histórias que mostrassem como a Globo influenciou na vida delas, a história vencedora seria encenada no quadro “Retrato Falado”, com Denise Fraga e o vencedor participaria da festa dos 40 anos da Globo. Tinha que ser de pessoas que também tivessem 40 anos. Lembrei da história da invasão e procurei alguns “invasores”, Lourdes tinha a idade certa e, baseado em seu depoimento, foi preparado este texto, que chegou a ser enviado para a Globo, mas, não foi desta vez que essa história foi para a telinha.



Prof. Jocelino – Março de 2005.

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